No apêndice publicado em seu romance Os Demônios de Loudun, de 1955, Aldous Huxley, também autor de Admirável Mundo Novo, aborda o existencialismo e a maneira como o indivíduo lhe dá com ele, de forma intrigante. Em poucas páginas o escritor inglês, cuja família fazia parte do nicho burguês-intelectual da sociedade britânica na virada do século XIX, contribuiu vastamente para o entendimento da condição humana.
O autor inicia sua explanação, sob base freudiana, afirmando que o indivíduo possui a necessidade inata de ser algo além do que é. Essa vontade inadiável leva o ser a praticar três tipos distintos de autotranscendência para fugir da realidade.
As formas autotranscendentes decadentes são considerados modos de evasão através da alienação, o que tornaria o indivíduo altamente sugestionável. Dentre eles o uso de entorpecentes, o sexo primário e a experiência coletiva são os principais. Assim, o homem, em vão, afirmaria o ciclo infindo de Schopenhauer, da vontade e do fastio, e, absorto, se desinstituiria de individualismo, tão defendido por Oscar Wilde em ''A Alma do Homem Sob a Luz do Socialismo.
A segunda prática de autotranscendência, e a mais comum, é classificada por Huxley como horizontal ou neutra. Faz parte da rotina dos seres e está arraigada na cultura. Casar e praticar esportes são exemplos de autotranscendência horizontal por serem indispensáveis mas nunca suficientes, humanas em excesso.
O ato mais nobre de autotranscendência, a de cunho ascendente, é o que o escritor denomina de ''vã repetição''. O poder de concentração, oriundo dessa prática, tende a melhorar a conduta pessoal através da auto-sugestão.
Auto-sugestão na contemporaneidade
Não é espantoso então afirmar que minha geração, nascida na segunda metade da década de 80, assim como o contexto social do século XXI, legitimam as idéias de Huxley 50 anos após sua concepção. Muito devido a coerência das bases teóricas utilizadas, elas hoje são reforçadas, pela sociedade civil, através de mores culturais.
E um destes, o qual tenho apreciação é, em grande parte, prática de jovens que nem sempre a exercem com os mesmos propositos. As raves, termo criado na Inglaterra e décadas depois utilizado para designar uma nova cultura musical eletrônica, possuem (em trecho) a seguinte definição no dicionário Inglês/Português Michaelis: ''...2.delirar, tresvariar...3. ser louco por, querer a todo custo...''.
Dessa forma, a ''vã repetição'' das músicas (mantras), através de suas letras e beats, induziriam o indivíduo ao transe ou estado de elevação da percepção propício para a auto-sugestão. Aqui vale ressaltar (não justificar) o uso de entorpecentes com a finalidade de sublimar o aumento da percepção já proporcionado pelos mantras. Ou seja, faz-se uso de uma forma descendente de autotranscendência para a potencialização em prol de um fim maior, tornando-a assim em ascendente.
A sensação do ''não-eu'' experimentada, abre espaço para a interação com outros seres que simultaneamente desfrutam da mesma experiência. Essa troca de auto-sugestões cognitivas, conduz o indivíduo a ''filtrar'' o que lhe irá ser passível de sugestão e irá corroborar para sua definição do ''Não-eu acima da individualidade'', por ser ele próprio ''um componente de uma multidão excitada''.
Assim, se ''a civilização exige do indivíduo uma auto-identificação devotada às mais elevadas causas da humanidade'', através das práticas autotranscendentes, para poder prosperar, as raves visam ''a autotranscendência ascendente no sentido da vida universal do Espírito''.
Mais do Mesmo
quarta-feira, 27 de maio de 2009
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1 lucidez e solidão?:
A tua foto ficou 10... Adorei os óculos... Não sabia que vc tb usa óculos.
Bjos,
Isa.
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